Mulheres Rurais: “Por mais difícil que seja a caminhada, não desista. É muito prazeroso ver o seu sonho realizado” - a luta de uma mulher rural assentada
08/03/2021 - 17:33


Tatiane de Jesus, de 29 anos, conta a sua trajetória de conquistas no campo


“Eu me sinto feliz por meu pai ter conseguido adquirir este pedaço de terra. O IDR-Paraná nos ajudou com um projeto para não trabalharmos mais com tração animal. Este projeto nos faz sermos vistos, sermos lembrados. Nós somos gratos e felizes. Trabalhar no campo é prazeroso, a tranquilidade do campo é muito boa. Mas, temos um trabalho pesado e o projeto do IDR-Paraná vai nos ajudar muito”. Este é o depoimento de Tatiane de Jesus, de 29 anos, produtora rural, que mora em um assentamento com a família há 22 anos, em Faxinal, no norte do Paraná.
A produção de tomate começou com o pai de Tatiane, que montou uma estufa e chamou a filha, quando ainda estava com 17 anos, para ajudar na produção. A jovem trabalhou e ganhou do pai um pedaço de terra para administrar. Ela produziu tomates, transformou em uma estufa, conquistou o lucro e, agora, dá mais um passo: deixa de trabalhar com o serviço pesado da tração animal após a compra de um motor graças a um projeto realizado pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná – Iapar-Emater (IDR-Paraná).

Quem ajudou nesta conquista foi Natália Vettor, assistente social do IDR-Paraná. “Foi um prazer chegar até esta família. Eu sou executora de um programa de transferência de renda do Estado do Paraná, chamado Renda Agricultor, e nós desenvolvemos este programa. Em parceria com o CRAS do município, nós atendemos as famílias que são beneficiárias do Família Paranaense e do Bolsa Família. Nós selecionamos famílias com perfil, que desenvolvem atividades na área agrícola e fazemos a transferência de renda e a família da Tatiane atende a este perfil”, explica Natália.

Ao chegar à propriedade, a assistente social teve a visão do todo. O profissional desta área enxerga a família por completo e percebe quais são as necessidades, o que pode ser melhorado, quais políticas públicas podem ser oferecidas e, assim, melhor a vida do pequeno produtor rural.

“A Tatiane é dedicada à gestão da propriedade como um todo, é bem articulada. Perceber o amor com que ela realiza tudo e o orgulho dela em manter o sustento com o que produz na propriedade, além de manter a feminilidade, conhecendo os próprios direitos, faz com que o extensionista tenha brilho no ar. Eu percebi que um dos grandes entraves é a comercialização. Ela se queixava, também, da maneira de preparar a terra. Ela, a irmã e a mãe usavam animal, que, na maioria das vezes, só o pai conseguia puxar. Por isso, ela tinha o sonho de comprar o motor para bater o canteiro. Escrevemos o projeto, que foi aprovado e ela comprou o motor. A família está em volta deste motor comemorando a chegada desta tecnologia. O prazer é mútuo – deles e nosso”, comemora a assistente social.

Esta será a primeira safra sem tração animal. Para Tatiane, será mais fácil preparar a terra com a enxada após a passagem do motor. O próximo passo é aumentar o negócio, ter mais estufas e conseguir ela mesma fazer a comercialização dos alimentos.

Estudo
Tatiane nunca quis sair do campo, mas este sonho não a impediu de realizar outro: concluir o ensino superior. Com a possibilidade do ensino à distância, a produtora rural prestou vestibular para Administração Pública e passou.
“Eu sempre tive o sonho de fazer a faculdade. A distância não permitia, quando veio o EAD, eu fiz o vestibular, passei, e fiz a faculdade sem sair do campo. Essa faculdade me auxilia muito ao realizar o orçamento da propriedade e me ajuda no meu dia a dia. Eu nunca tive vontade de sair daqui. Eu sonho em ficar no campo, junto com meus pais, que daqui a algum tempo não vão mais conseguir trabalhar como eles trabalham hoje. Eu quero estar aqui para auxiliá-los e continuar com o trabalho no campo”, comenta Tatiane.
Com este perfil, a produtora rural se tornou uma das possíveis líderes do assentamento por ser engajada, buscar melhorias e barrar os preconceitos.

A vida no assentamento
Tatiane conta que a vida do assentamento mudou muito nos últimos anos. “As pessoas acham que vão vir aqui e encontrar um monte de barraco, um ao lado do outro, mas não. A nossa realidade mudou. Cada um tem a sua casa própria, com o seu lote. Planta no próprio espaço. Só que nós temos muitas dificuldades, porque somos vistos de maneiras diferentes por sermos assentados e pequenos produtores. Quem é de fora limita alguns benefícios por não nos conhecer direito. Só que eu enfrento este empecilho, porque é muito prazeroso vivenciar o seu sonho, ter a sua terra para plantar e viver aqui”, conta a assentada.

O trabalho do IDR-Paraná
O grande diferencial do olhar do assistente social é chegar até à família e conhecer as vulnerabilidades por completo. A área social faz uma análise mais generalista e proporciona a possibilidade de levar políticas públicas diferenciadas. “O IDR não tem a intenção de realizar a transferência de renda, neste caso, por si só. A gente troca saberes quando vem prestar assistência técnica e extensão rural aqui. Eu saio daqui mais empoderada, é um trabalho continuado de ATER. E esta família tem perfil de ser assistida em outros programas de políticas públicas”, esclarece a servidora.

Luta
Quando Tatiane é questionada em qual palavra resume a própria vida, ela nem pestaneja: “Luta. O que eu tenho para falar é que por mais difícil que seja a nossa luta, não desista dos seus sonhos, não desanime. Por mais difícil que seja a caminhada, podem surgir projetos que fazem nosso olho brilhar. Acredite que sempre terá alguém olhando por nós, como eu tive a Natália aqui. Minha vida se resuma em luta de muitas conquistas”, finaliza Tatiane.


Reportagem: Marina Petri

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