IDR-Paraná fortalece o turismo de base comunitária na Ilha do Maciel 20/03/2026 - 11:35

Nas águas da Baía de Paranaguá, onde canoas coloridas e redes de pesca compõem a paisagem tradicional, a Ilha do Maciel consolida um novo capítulo de sua história. O Turismo de Base Comunitária (TBC) tem se tornado instrumento estratégico de desenvolvimento sustentável e de garantia territorial para a comunidade caiçara, com apoio técnico do IDR-Paraná. A iniciativa é conduzida pelo extensionista Charles Fernando Marins Peixoto, especialista em Gestão Turística, que atua diretamente na organização comunitária há mais de uma década, no planejamento participativo e na estruturação das ações de desenvolvimento local. O trabalho significa a esperança de novas perspectivas para os moradores daquela comunidade.

A Ilha do Maciel tem mais de dois séculos de ocupação tradicional. Ao longo desse tempo foi cenário de conflitos fundiários e pressões relacionadas à expansão industrial e portuária na região. A origem das disputas remonta à Lei Estadual nº 249/1949, que desconsiderou a posse tradicional das famílias ao destinar áreas à empresa Balneária Pontal do Sul S/A. Diante dessa decisão, a organização comunitária tornou-se fundamental. Em 2017 foi criada a Associação Comunitária dos Pescadores da Ilha do Maciel. Com apoio técnico do IDR-Paraná, os pescadores passaram a atuar de forma estruturada na defesa de seus direitos e na construção de alternativas econômicas sustentáveis.

Direitos dos moradores

A atuação do Instituto resultou em conquistas importantes para a permanência das famílias no território. Entre elas, a obtenção do Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS), instrumento que garante segurança jurídica às famílias frente a interesses externos. Também foi elaborado o Cadastro Ambiental Rural (CAR) Comunitário, assegurando reconhecimento ambiental e gestão coletiva do território. A chegada da energia elétrica representou outro marco estrutural, ampliando a qualidade de vida das famílias, viabilizando o armazenamento adequado do pescado e permitindo melhorias na infraestrutura necessária ao turismo.

Desde 2016, a Ilha do Maciel integra os Circuitos Internacionais de Caminhadas na Natureza, evento que reúne aproximadamente 300 visitantes por edição. A mobilização envolve 19 famílias, que oferecem alimentação típica e acolhimento aos participantes. “O cardápio é a expressão da identidade caiçara: arroz, feijão, peixe fresco frito, farinha de mandioca branca e sucos de frutas nativas da Mata Atlântica. Mais do que gerar renda pontual, o evento reforça o reconhecimento da comunidade como destino turístico de valor cultural e ambiental”, afirma Peixoto.

Alternativas de renda

O planejamento participativo, coordenado por Charles Peixoto, identificou oportunidades de diversificação e agregação de valor à produção local. Entre as iniciativas em desenvolvimento estão: a produção de pescado defumado, ampliando a vida útil e o valor comercial do pescado; a fabricação de doces artesanais com frutos da floresta; o artesanato; o guiamento em trilhas ecológicas e vivências culturais; a estruturação da pesca de recreio; e o turismo de observação de aves. “O modelo prioriza o protagonismo comunitário, a geração de renda local e a conservação ambiental”, observa Peixoto. A busca de alternativas econômicas para os moradores da ilha é urgente, já que o número de famílias residentes na comunidade vem diminuindo de forma significativa. Segundo os últimos dados, em 2017 eram 43 famílias e em 2023 o número foi reduzido para 27. Segundo Peixoto, esse fato reforça a necessidade de desenvolver estratégias que estimulem a permanência das novas gerações na comunidade.

Formação

Por meio do Diagnóstico Participativo Rural (DRP), metodologia aplicada pelos profissionais do IDR-Paraná, os próprios moradores contribuem na definição das prioridades de desenvolvimento. Atualmente, 70% dos responsáveis familiares estão em faixa economicamente ativa e 19 das 27 famílias demonstram interesse direto em atuar com o Turismo de Base Comunitária. Estão previstas capacitações em formação de guias, gestão de negócios comunitários e qualificação da infraestrutura paisagística, com foco na consolidação de um ecossistema econômico capaz de fortalecer a sucessão familiar e manter os jovens no território. Para o IDR-Paraná, o Turismo de Base Comunitária na Ilha do Maciel vai além da atividade econômica. “Trata-se de estratégia integrada de desenvolvimento territorial, proteção ambiental e valorização da cultura caiçara” destaca Peixoto. A experiência na Ilha do Maciel demonstra que o turismo responsável pode funcionar como instrumento de resistência frente à descaracterização territorial, promovendo desenvolvimento sustentável e preservando o patrimônio cultural do litoral do Paraná.