Projeto na área de Itaipu estabelece protocolo de manejo conservacionista em área de grãos 17/03/2026 - 10:16
Entre 2021 e 2024, extensionistas do IDR-Paraná avaliaram 89 áreas em propriedades rurais das bacias dos rios Ivaí, Piquiri e Paraná III. O objetivo foi avaliar as condições de fertilidade e identificar as práticas que tiveram influência direta na qualidade do solo. A iniciativa fez parte do projeto de Manejo Conservacionista em Áreas de Grãos que integram o Programa AISA (Ação Integrada de Solo e Água), uma iniciativa da Itaipu Binacional em parceria com a Embrapa, IDR-Paraná, FAPED e USP/Esalq. A partir desse levantamento, foi estabelecido um protocolo técnico para orientar o trabalho da Extensão Rural, tendo em vista a preservação dos recursos naturais, bem como a manutenção da qualidade da água do lago de Itaipu.
A preocupação com o solo tem uma justificativa concreta. Apesar de o Paraná ter 81% de sua área de grãos sob Plantio Direto (PD), a não adoção de rotação de culturas, a compactação do solo e a não utilização de terraços vêm reduzindo a infiltração de água no solo e aumentando a ocorrência da erosão. De acordo com Edivan José Possamai, coordenador estadual do programa Grãos Sustentáveis do IDR-Paraná, somente o Plantio Direto não sustenta mais a eficiência produtiva das lavouras. “É preciso integrar rotação de culturas, produção de palhada e terraceamento, bem como o uso correto de dejetos animais como fertilizante, cuja aplicação sem diagnóstico tem provocado excesso de nutrientes e risco de contaminação hídrica”, afirma Possamai.
O levantamento de informações, a partir do projeto, foi importante para que os extensionistas entendessem como as práticas adotadas pelos produtores têm impactado na qualidade do solo e da água e pudessem estabelecer ações de melhoria. Durante a ação, foram levantados alguns indicadores de fertilidade do solo e de manejo. Entre as propriedades avaliadas houve uma predominância do binômio soja/ milho safrinha, além de alguns talhões com plantio diversificado e de plantas que produzem palha, a exemplo do soja/milho/braquiária e soja/aveia/trigo/milho.
Uso de dejetos
Os extensionistas perceberam que o uso de dejetos animais como fertilizante, combinado com adubos químicos, é comum na região e impacta diretamente as condições do solo. “Observamos que os índices de fertilidade como o teor de potássio, fósforo e cálcio era alto, mas os agricultores continuavam usando os dejetos sem critério técnico ou qualquer tipo de controle. É preciso melhorar os critérios técnicos de uso desse insumo, em função do impacto ambiental dessa prática” destacou Possamai. Ele lembrou ainda que o uso dos dejetos nas áreas de lavoura pode ser uma forma de melhorar a fertilidade, com a redução de custos de produção.
Palhada
Outro aspecto importante foi a existência, ou não, de palhada nos talhões analisados. “A maioria das áreas apresentou baixa produção de palhada, o que revela um Sistema de Plantio Direto insuficiente e que pode gerar a compactação e erosão do solo”, ressaltou Possamai. Segundo ele, as propriedades só não foram mais prejudicadas porque adotaram o sistema de terraceamento que mantém a água das chuvas nas áreas com lavoura e contribui para diminuir a erosão. Possamai acrescentou que a estrutura do solo, na maioria das áreas, apresentou baixa qualidade estrutural. Para ele, esse problema pode ser mitigado com a adoção de boas práticas como a rotação de culturas, o terraceamento, a adubação adequada e a produção de um bom volume de palhada. “Em áreas que adotaram essas técnicas, houve um incremento de 12% na produtividade da soja. Nos períodos de estiagem, como na safra 2021/2022, os sistemas com boas práticas se mostraram mais resilientes e mais produtivos”, informou Possamai.
Protocolo técnico
A partir desse levantamento, os extensionistas do IDR-Paraná elaboraram um protocolo técnico voltado ao manejo da fertilidade química do solo e uso de espécies para a produção de palhada, fortalecendo o Sistema de Plantio Direto. “Essas informações também vão servir de base para o Programa de Recursos Naturais e Sustentabilidade do IDR-Paraná, implementado no estado em parceria com a Sanepar e Banco Mundial”, informou Possamai. Ele disse que esses dados confirmam o que já era aventado pelos extensionistas, o forte impacto do uso dos dejetos animais nas áreas de agricultura, o papel da palhada e da rotação de culturas na conservação do solo. “Os resultados reforçam que a saúde do solo é decisiva para a produtividade, conservação e segurança hídrica na região. A sustentabilidade da agricultura paranaense depende diretamente da saúde do solo, elemento que sustenta não apenas as lavouras, mas a qualidade da água que abastece o reservatório de Itaipu, servindo como base da produção de energia para Brasil e Paraguai”, concluiu Possamai.
Hudson Carlos Lissoni, da área de Hidrologia da Itaipu Binacional, ressaltou que o projeto teve uma avaliação muito positiva pelo alcance e abrangência do levantamento. Segundo ele, foi possível perceber como o sistema de produção de grãos está se comportando e contribuindo para a conservação e compactação do solo na área do reservatório de Itaipu. Para Lissoni, essas informações dão um direcionamento para que as políticas públicas sejam aprimoradas, com o objetivo de preservar os recursos naturais.
“O que precisamos é produzir água na bacia hidrográfica e isso depende de ajustar o ciclo hidrológico, aumentar a infiltração da água no solo para melhorar a recarga do lençol freático na região. Se aumentamos o tempo de permanência da água no solo, ela vai chegar ao reservatório sem sedimentos, o contrário da água superficial. Melhorar as condições de infiltração da água no solo é uma questão estratégica, tanto para os produtores quanto para Itaipu. Queremos regularizar a produção de água ao longo do ano todo e aumentar a vida útil do reservatório de Itaipu” afirmou o engenheiro.










